István Mészáros: Sobre a crise estrutural do Capital
Tradição Filosófica
sexta-feira, 1 de junho de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
Aula de empirismo
Contraposto ao racionalismo, o empirismo
apresenta forte influência do pensamento aristotélico no que concerne à origem
das idéias: nega a existência de idéias inatas, defendendo que todas as nossas
idéias são adquiridas por meio da experiência.
John Locke (1632-1704)
Para negar a existência de idéias inatas, Locke se vale da
metáfora do entendimento (mente ou espírito) humano como tábula rasa: o
entendimento espera para ser preenchido pela experiência, assim como uma folha
de papel em branco, pela escrita. No Ensaio
acerca do entendimento humano, ele afirma que todo conhecimento é
adquirido. A única coisa inata ao homem seria sua capacidade de conhecer: as
faculdades do entendimento, mencionadas apenas rapidamente.
Ele se propõe a
investigar a origem de nossas idéias, entendidas como os materiais de nosso
conhecimento, como qualquer coisa que consiste no objeto do entendimento quando
pensamos. As fontes de nossas idéias são duas, que, juntas, formam o que Locke
chama de experiência: 1) a sensação, que consiste na percepção das
sensações provenientes dos objetos sensíveis externos; 2) a reflexão, que consiste na percepção das
operações internas de nossas mentes.
Locke distingue
duas categorias de idéias: as simples e as complexas. As qualidades sensíveis
que impressionam nossos sentidos, apesar de estarem misturadas e unidas nos
próprios objetos externos, entram pelos respectivos sentidos sem qualquer
mistura, separadas e simples: constituem as idéias simples da sensação – o
exato oposto das idéias simples cartesianas, que são da razão (como 2+2=4, por
exemplo). A cor e o gosto de um determinado objeto, por exemplo, estão unidos
nele, mas seriam completamente distinguíveis entre si como idéias percebidas
separadamente pela visão e o paladar, e nada contém em si além de uma aparência
ou concepção uniforme na mente, que não pode ser dividida em idéias diferentes.
O entendimento, quando abastecido de idéias simples, tem o poder para
repeti-las, compará-las e uni-las quase infinitamente, formando assim as idéias
complexas, mas não pode jamais destruí-las ou inventá-las (deve sempre
recebê-las da sensação ou da reflexão, ou seja, da experiência). Algumas idéias
simples da sensação podem se tornar perceptíveis por um único sentido (como
idéias de cores, sons, gostos, etc), outras por mais de um (idéias de espaço ou
extensão, de repouso e movimento, etc.).
A mente humana,
adquirindo do exterior as idéias simples da sensação, volta-se para dentro de
si mesma e observa suas próprias operações acerca das idéias que já possui: é a
origem das idéias simples da reflexão, que compreendem as idéias de percepção
ou pensamento e de vontade, também chamadas por Locke de faculdades da mente.
Há também idéias simples que nos vêm tanto da sensação quanto da reflexão, como
as idéias de existência, de poder, de prazer e dor. Segundo o protestante
Locke, as idéias de prazer e dor teriam sido ajuntadas aos vários pensamentos e
sensações, por Deus, nosso “sábio Autor”, com o intuito de motivar-nos a certas
ações do pensamento e movimentos de que somos capazes, a fim de evitar que nos
tornemos ociosos e inativos, e preservar-nos de outras.
A faculdade de
retenção seria a responsável pela manutenção, na mente, das idéias simples que
recebemos por sensação e reflexão. A retenção se dá de dois modos: por
contemplação, ou seja, mantendo a idéia introduzida realmente sob a visão ou
percepção imediata, e por memória, que consiste no poder de reviver em nossas
mentes aquelas idéias que, após serem impressas, desapareceram ou parecem ter
sido postas de lado, longe da visão. A memória seria como um armazém de idéias,
um quarto escuro do entendimento, cuja função seria a de fornecer à mente as
idéias adormecidas, quando solicitadas em determinadas ocasiões. Permanece
obscuro como e por que algumas idéias vêm à tona e outras não; Locke apenas
afirma que essa recordação depende às vezes da vontade. A atenção, a repetição
e o prazer e a dor ajudariam a fixar as idéias na memória.
Assim, a partir
das idéias simples que a mente recebe passivamente, ela forma voluntariamente
idéias complexas. A mente é, como para os empiristas em geral, apenas um
instrumento, um meio que atua sobre o que recebe passivamente, sem, porém,
tirar nada de si mesma: no linguajar dos racionalistas, eles cairiam na dúvida
cética, pois páram no plano do sensualismo, refutando a existência de verdades
puramente de razão.
As principais
faculdades da mente, pelas quais ela exerce poder sobre suas idéias simples,
são: 1) a combinação de várias idéias simples para formar uma complexa
(combinando várias idéias de unidade, por exemplo, chegamos à de uma dúzia); 2)
comparação de duas idéias, sejam simples ou complexas, a fim de obter uma visão
delas, sem, porém, reduzi-las a uma (origem das idéias de relação, entre as
quais encontram-se as idéias de tempo e espaço e de causa e efeito); 3)
denominação: repetição de idéias e uso de um sinal lingüístico para se referir
a elas e comunicá-las a outrem; 4) a separação das idéias de todas as outras
que lhes estão relacionadas em sua existência real, por meio da abstração
(origem das idéias gerais).
As idéias
complexas dividem-se em três tipos: 1) idéias de modos ou acidentes: não contém
em si a suposição de que podem subsistir por si mesmas; 2) idéias de
substâncias: representam coisas que podem subsistir por si mesmas; 3) idéias de
relação: remetem à comparação de uma idéia com outra.
David
Hume (1711-1776)
Para Hume, todas as ciências, inclusive a matemática,
dependeriam de certo modo do estudo da natureza humana, já que são objetos do
conhecimento do homem, sendo julgadas por seus poderes e faculdades. As
principais ciências seriam: a lógica, cuja finalidade é a explicação da
natureza das idéias e dos princípios e operações de nossa faculdade de
raciocinar; a moral e a crítica (estética), que tratam dos nossos costumes,
gostos e sentimentos; a política, que trata dos homens enquanto unidos em
sociedade. Tais ciências compreendem quase tudo que possamos ter interesse em
conhecer e correspondem ao que Hume entende por metafísica, entendida enquanto
ciência dos fundamentos, dos princípios primeiros do conhecimento (base para
todas as outras ciências). Ironicamente, a metafísica de Hume corresponde ao
que chamamos de filosofia prática.
O
único modo de conduzir as investigações filosóficas ao sucesso seria marchar
para sua “capital ou centro”: a própria natureza humana. Pode-se notar, no
pensamento, humeano, certa antecipação de traços do que se tornará a chama
“revolução copernicana” de Kant. Fiel ao empirismo, porém, Hume afirma que a
ciência do homem teria na experiência e observação seu único fundamento sólido.
O conhecimento, segundo Hume, divide-se em dois
tipos: questões de fato, ou seja, o conhecimento com bases empíricas, e
relações de idéias (aqui se encontra a matemática), que independe da observação
de fatos empíricos.
Existem,
segundo Hume, dois tipos de percepções da mente humana: impressões e idéias.
Sua diferença consistiria apenas nos graus de força e vividez com que atingem
nossa mente e entram em nosso pensamento: as impressões corresponderiam às
percepções que penetram em nossa alma com mais força e violência – as
sensações, emoções e paixões, em sua primeira aparição –, enquanto as idéias,
por sua vez, seriam impressões enfraquecidas, imagens pálidas dessas impressões
no pensamento e no raciocínio – uma espécie de ficção criada pela mente a
partir das impressões. As impressões são os objetos do sentir, e as idéias, do
pensar; são, em geral, distinguíveis entre si de um modo bastante claro, embora
existam ocasiões em que possam se encontrar bastante próximas, como no sono.
Com tal distinção, Hume coloca-se contra a concepção lockeana segundo a qual as
próprias sensações são idéias, tornando o processo de formação das idéias, que
para Locke era imediato, em mediado pela mente.
Hume
estabelece uma divisão das percepções, aplicável tanto às impressões quanto às
idéias, em simples – não podem ser distinguidas em partes – e complexas –
admitem uma tal distinção. Por exemplo: as sensações das qualidades da maçã
(aroma, cor, sabor) são distinguíveis
entre si e não podem ser divididas (são impressões simples), enquanto a
sensação da maçã, por sua vez, seria uma impressão complexa. Toda impressão simples
tem uma idéia simples que lhe corresponde, e vice-versa. Como as complexas se
formam a partir delas, em geral impressões e idéias se correspondem, embora
existam exceções, devido ao trabalho da imaginação. As impressões simples
sempre antecedem suas idéias correspondentes, elas são causas de suas idéias (que são suas cópias enfraquecidas);
as idéias também produzem outras idéias (imagens de si próprias), e assim por
diante.
As
impressões podem ser divididas em dois tipos: de sensação e de reflexão. Quando
uma impressão atinge nossos sentidos, fazendo-nos perceber calor ou frio, por
exemplo, temos uma impressão de sensação. Em seguida, a mente faz uma cópia
desta impressão, que permanece mesmo após essa desaparecer: tem-se, assim, uma
idéia de sensação. Esta idéia de calor ou frio, ao retornar à alma, produz
novas impressões, de desejo ou aversão, por exemplo, que podemos chamar
propriamente de impressões de reflexão, pois derivam dela (dos efeitos das
idéias de sensação em nosso pensamento). A mente, em seguida, copia novamente
essas impressões de reflexão, convertendo-as em idéias reflexão, que podem
gerar ainda outras impressões e idéias. Portanto, as impressões de reflexão antecedem
apenas suas idéias correspondentes, mas não as idéias de sensação.
O
interesse principal de Hume centrava-se na filosofia moral (estudo dos
costumes): como o estudo das sensações caberia mais ao anatomista e ao filósofo
natural, e os desejos, emoções e paixões (objetos da filosofia moral), ou seja,
as impressões de reflexão, surgem das idéias, Hume volta-se a um exame destas,
deixando de lado as sensações.
Quando
uma impressão esteve presente na mente, reaparece sob a forma de uma idéia,
podendo isso ocorrer de dois modos: pela faculdade da memória, por meio da qual
a idéia retém um considerável grau de vividez de sua impressão, sendo uma
espécie de meio termo entre uma impressão e uma idéia, e pela faculdade da
imaginação, por meio da qual a idéia perde inteiramente a vividez da impressão
que a causou (torna-se uma perfeita idéia). Diferentemente da memória, a
imaginação não se atém à mesma ordem e forma das impressões originais, mas tem
liberdade para transformar suas idéias e pode produzir uma separação entre
elas, sempre que observar alguma diferença.
A
faculdade da imaginação seria inexplicável – e sua associação de idéias simples
em complexas, completamente arbitrária –, caso não fossem observáveis alguns
princípios universais que a regem (uma espécie de força suave que a torna
razoavelmente uniforme). Esses princípios são três, e têm por fundamento unicamente
o hábito da mente em associar idéias: 1) semelhança: a imaginação passa de uma
idéia a qualquer outra que lhe seja semelhante; 2) contigüidade (ou
proximidade) no tempo e no espaço: a idéia de um cômodo de uma casa, por
exemplo, leva à idéia de um outro imediatamente próximo; 3) causa e efeito: é o
laço mais forte que pode haver entre duas idéias na mente, que não as conecta
apenas por causalidade direta, mas também quando há entre elas uma terceira,
que mantém relação com ambas. A relação de causalidade que estabelecemos entre
duas idéias (por exemplo, entre a de fogo e a de calor) não é necessária: só
chegamos a ela por experiência e indução, sendo o hábito ou costume o seu único
fundamento. Há uma célebre frase sua que diz que não podemos ter certeza de que
o sol nascerá amanhã; se afirmamos que ele nascerá, o fazemos unicamente por
costume: observamos que, até hoje, ele sempre nasceu, e, a partir daí,
concluímos, a partir de limitadas observações particulares, que isso sempre
ocorrerá (raciocínio indutivo).
Em
Hume, todas as associações se dão na mente, apenas no âmbito das idéias; não há
mais uma espécie de realismo ingênuo que remetia as idéias às impressões, e
estas às próprias coisas – “colando-as” todas –, como ainda havia, de certo
modo, em Locke. Inclusive, quando Hume afirma que as idéias tem as impressões como
suas causas, isso significa que as
idéias só remetem a elas por meio do hábito que temos em relacioná-las.
sábado, 26 de maio de 2012
Aula 3 – Ontologia Platônica
Platão fundou uma escola de Filosofia chamada Acadêmia, onde em seu pórtico contava com a inscrição “não entre aqui quem não souber geometria”, o que nos alude ao caráter abstrato-formal de suas concepções filosóficas. Afinal, quantos sejam os triângulos reais existentes ou as circunferências encontráveis na natureza ou mesmo as produzidas pelo homem, nenhuma destas figuras existe tal como a idéia que fazemos conceitualmente delas pois, por mais avançado que seja o nível tecnológico de nossos instrumentais, há sempre uma distorção residual. Seja no macro ou no microcosmo, onde era para ser reta encontra-se uma curva, e onde era para ser curva encontra-se uma reta (vide os figuras geométricas computacionais que, construídas por pixels, sempre esbarram num limite...)
- O fundamento da doutrina ontológica platônica está na relação de participação que se estabelece entre ‘formas puras’ (eidos) – entendíveis como universais, conceitos generalistas e abstratos – e os ‘particulares’ – exemplares concretos. O verbo ‘participar’ tem aqui o mesmo sentido que o verbo ‘instanciar’. Ex: “aquela cadeira ‘x’ determinada participa do (ou instancia o) universal ideia-cadeira”.
- Para Platão, cada ‘particular’ participa de um conceito que lhe é maior, de uma idéia que lhe abrange, um ‘universal’. Assim sendo, o exemplar particular não esgota todo o sentido (toda a possibilidade) da ideia universal de si mesmo da qual precisamente porque participa é que é dela um exemplar, um existente. O particular é apenas um exemplo determinado (específico). Ex: a cadeira ‘x’ é uma dentre as possíveis cadeiras. Nesse sentido, o universal significa precisamente uma ideia geral, um conceito, uma forma pura, ou seja, é a essência da coisa mesma em questão. É preciso notar que o que há de essencial é aquilo que não muda. Para Platão, a essência das coisas é eterna, enquanto que as coisas, estando em devir, são corruptíveis, deixam de existir. Ex: a ideia-cadeira, que é o que há de essencial em todas as cadeiras, não deixaria de existir ainda que todas as cadeiras concretas fossem aniquiladas. O exemplo anterior deixa claro uma importante noção segundo a qual o vínculo ontológico entre particulares e universais é um vínculo externo; ou seja, a ideia – universal – não está contido nos particulares que dela participam, precisamente porque nenhuma cadeira particular encerra a essência do que seja uma cadeira em geral. Em outras palavras, o todo é maior do que a soma das partes. Mais do que isso, a unidade do conceito é anterior à multiplicidade de particulares. Por isso mesmo que, ainda que destruíssemos todas as cadeiras do mundo, a ideia do que seja uma cadeira não por isso deixaria de existir, sendo ainda possível voltar a construir cadeiras porque delas ainda teríamos o saber, o conceito. O detalhe é que para Platão o conceito é condição de possibilidade, é anterior, existe enquanto realidade externa à coisa concreta.
A suposta externalidade da forma (essência, em-si) incorruptível, frente à instabilidade da matéria, em constante movimento (devir), leva Platão a conceber o ‘mundo das formas’. Este é um conceito que visa superar as distintas - ou até mesmo opostas - teses ontológicas dos filósofos pré-socráticos Parmênides e Heráclito. Vejamos suas teses:
- Parmênides defendia a tese segundo a qual o todo era Uno, indivisível, e também que “o ser é e o não-ser não é”. Por ‘é’ entende-se ‘existência’. Platão designaria tal tese como a “tese da identidade ou repouso do ser”, na qual o ser existe enquanto idêntico a si mesmo. Para Parmênides, nada que seja existente, pensável e dizível pode não-ser, pois o não-ser não é, sendo assim era impensável e indizível. A consequência é que o mundo material como o conhecemos, em seu incessante movimento (portanto em seu incessante tornar-se outro), não passava então de ilusão dos sentidos, irrealidade, pois o ser era estático.
- Por sua vez, Heráclito sustentava a tese segundo a qual a essência do Real era estar em movimento, estar em devir, ou seja, ser transformação ininterrupta. Tese designada por Platão como “mobilismo quanto ao ser”. Consequentemente, toda apreensão do Real enquanto fixidez advinha da incapacidade dos sentidos de apreenderem o movimento subjacente que reside em todas as coisas.
A noção de ‘mundo das formas’ como tentativa de superar o dilema entre imobilistas e mobilistas visa compatibilizar a realidade imutável das essências inteligíveis (eidos) com a realidade mutável dos fenômenos sensíveis. Para Platão, há realidade tanto no devir material quanto no conceito do qual correspondem e, por ser o mundo das formas um mundo de formas puras (perfeitas) então, consequentemente, possui tanta realidade quanto a realidade do mundo sensível, que também existe mas é cópia imperfeita das formas puras. A melhor ilustração do que seja o ‘mundo das formas’ é a conhecida “alegoria da caverna”, apresentada por Platão em seu livro A República, quando já no “capítulo” VII. Segue abaixo um resumo da alegoria:
Consiste numa estória em que alguns prisoneiros imóveis desde a infância no interior de uma caverna nunca teriam visto nenhuma outra imagem além das sombras que incidiam projetadas pela única fonte de luz que era a entrada da caverna, para a qual estavam de costas. Com os rostos voltados para a parede, sem possibilidade de volver o pescoço, visualizavam ao longo do dia as mais distintas e indefiníveis formas, e como nunca tinham experienciado nada além daquilo, achavam que somente as sombras eram o que existia. Houve um dia, porém, em que um dentre eles conseguiu se libertar e logo adiantou-se para fora da caverna. Como nunca tinha entrado em contato com aquela abundância de luz tal como emana do Sol sob a Terra, seus olhos então ofuscaram-se mas, tão logo adaptados, começou a enchergar as coisas como elas são de fato. Para seu espanto, o mundo tinha contornos bem definidos, bem delineados, e mais, as coisas tinham cores! Animado com a descoberta, desceu novamente à caverna para comunicar a verdade aos seus companheiros de cativeiro, dizer-lhes que as formas na parede eram sombras, projeções imperfeitas de um mundo Real e belo, e que quando enfim estivessem libertos poderiam ver o que lhes dizia com os próprios olhos! Todavia, julgaram-no louco e o mataram.
Comparando a alegoria com o conceito de mundo das formas:
- o Real da alegoria, o mundo fora da caverna, seria como que a realidade do mundo essencial onde existem as formas puras (eidos). O crucial a ser extraído da analogia é a noção de contorno, de precisão, de limite. Afinal, o universal ou a essência de cada coisa tem ilimitados exemplares particulares, mas ela mesma é uma só em sua perfeição.
- As sombras projetadas na caverna seriam como que o mundo sensível. O crucial aqui é entender que o mundo sensível por mais que seja real (existente) é apenas produto de uma fonte outra, de um modelo, que lhe é externo – tal como as sombras são extrínsecas aos modelos do qual são sombra.
- Os prisoneiros na caverna são como que as pessoas no mundo. Indica que nossos conhecimentos estão às voltas com o falso, com as sombras de uma verdade superior. O movimento de libertação e subida para fora da caverna em direção à luz representa o processo dialético, a ciência pela qual o filósofo pode superar as opiniões (doxa).
O método ou ciência para passar das falsas opiniões sobre o que sejam as coisas e chegar à uma verdade essencial acerca das mesmas é o que Platão entendia por ‘dialética’. Nas palavras do filósofo:
“(...) o método da dialética é o único que procede, por meio da destruição das hipóteses, a caminho do autêntico princípio, a fim de tornar seguros os seus resultados, e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e eleva-os às alturas (...)” (A República, 533d).
A dialética é um método dialógico, ou seja, posto em prática pela via do diálogo, ainda que seja consigo mesmo, o que caracteriza o próprio ato de pensar: dialogar consigo. Vale ressaltar que, para que os interlocutores possam chegar a conclusões seguras, é preciso que abram mão de suas concepções pré-estabelecidas, ou seja, que aniquilem o orgulho que fixa na forma da certeza uma não-verdade, uma opinião dogmática.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Aula 8 - Filosofia Política Moderna (Maquiavel e Hobbes)
Com o advento da modernidade e início do
desenvolvimento do capitalismo, tem-se uma fragmentação da vida política e
cultural, do ethos único que fundamentava os antigos laços sociais. Neste
contexto, surge o pensamento político moderno, que tem como uma de suas marcas
centrais o rompimento com a perspectiva grega segundo a qual a organização
social era natural e anterior aos indivíduos, e, portanto, a submissão destes a
ela decorria de sua própria posição no cosmos. O pensamento político grego
questionava uma dada forma de organização social, mas não a própria relação
entre ela e o indivíduo, questionamento colocado pela filosofia moderna.
Maquiavel
(1469-1527)
É
considerado o pai da filosofia política moderna. Diferentemente da política
aristotélica, a política de Maquiavel não parte de relações entre indivíduos,
mas sim de um sujeito que, tomado como ponto fixo, reconstrói o mundo a partir
de si, buscando fundamentar sua normatividade em si próprio. Essa reconstrução
subjetiva do mundo é típica do pensamento moderno e será nitidamente observada,
no âmbito epistemológico, em Descartes.
A Itália de
Maquiavel encontrava-se fragmentada em diversas cidades-estado e constantemente
ameaçada pela Igreja e as monarquias – Portugal, Espanha,
França e, principalmente, Inglaterra –, que a atacavam devido à sua
privilegiada localização no mar Mediterrâneo, propícia ao comércio. Maquiavel
dedicou O Príncipe a Lorenzo de
Médici, em quem depositava esperanças de estabelecer uma nova ordem política na
Itália, unificando-a. A obra é uma espécie de manual acerca de como deve
conduzir-se o monarca para conquistar o poder – no caso dos príncipes novos – e
nele manter-se.
Tendo
em vista tal perspectiva nitidamente estratégica, Maquiavel afirma que não está
interessado em imaginar como as coisas deveriam ser, mas sim em abordar a sua verdade efetiva. Percebe-se a nítida
crítica ao normativismo platônico e ao conceito metafísico-ontológico
tradicional de verdade – de herança platônica e aristotélica – enquanto uma
essência ou princípio imutável por detrás das aparências sensíveis: com o termo
verdade efetiva, Maquiavel está forjando, pela primeira vez, o conceito
moderno de efetividade, voltado à descrição dos fenômenos em sua superfície que
pode ser observada, apresentando, deste modo, uma maior proximidade com os
sofistas, segundo o quais o que importava eram as aparências. O pensamento
político de Maquiavel, portanto, volta-se ao âmbito do ser, do descritivismo.
Ademais, Maquiavel é avesso ao essencialismo grego que vê na natureza humana
uma tendência à excelência moral: não se pode definir a natureza humana; o
máximo que se pode dizer acerca dos homens é que são múltiplos e refratários à
unidade, mas, em geral, tendem ao egoismo, a amar apenas a si mesmos. Há, em
seu pensamento, traços de um pessimismo antropológico, já presente nos sofistas
e bastante forte em inúmeros pensadores modernos. Com efeito, afirma que aquele
que quiser praticar sempre a bondade está condenado a sofrer, entre tantos que
não são bons. É necessário, portanto, que o príncipe que deseja manter-se
aprenda a agir sem bondade, faculdade que será ou não usada, em cada caso,
conforme seja necessário.
Maquiavel encontra-se no início de um
movimento, realizado pela filosofia moderna em geral, de separação entre ética
e política, entre horizonte valorativo (que deve ser internalizado pelo
indivíduo) e ação individual, de um lado, e Estado pretensamente neutro, sem de fato o ser, de outro. A finalidade da ciência política,
para ele, é a conquista e preservação do poder dos Príncipes, por meio da ação
política – distinta da ação moral ou ética –, que deve guiar-se pelos fenômenos
observáveis e apresenta uma virtude própria, a virtude política, distinta da
virtude ética. Como os homens apresentam o desejo de governar-se por amor a si,
não podem amar o Príncipe; o Príncipe sábio, portanto, para ser respeitado,
deve fazer-se temido pelos súditos, por meio da ameaça do castigo, evitando, porém,
ser odiado, sendo o ódio por parte dos súditos a maior desgraça que pode
abater-lhe, pois fará com que perca seu apoio e, conseqüentemente, seu Estado. Para
ser temido, mas não odiado, o Príncipe deve abster-se de tomar os bens de seus
súditos. O respeito à propriedade privada, portanto, representa o limite entre
ser temido e odiado; na verdade, Maquiavel vai mais além, afirmando que o
Príncipe não deve impor limites ao aumento de bens e patrimônios. Pode-se notar
o ethos capitalista nascente: o ponto de partida da política maquiaveliana não
é mais o antropos politikós (homem político)
aristotélico.
A virtude política principesca
corresponderia a uma combinação entre astúcia,
entendida como uma racionalidade estratégica, força, no sentido de capacidade de intervir no fluxo dos
acontecimentos, e um conhecimento das circunstâncias históricas específicas em
que se encontra, ou seja, da fortuna
ou sorte. Sendo a sorte arbitrária de metade de nossas ações, permitindo- nos
controlar a outra metade, o Príncipe deve reconhecer o fluxo dos acontecimentos
e antecipar-se a eles. Maquiavel compara “a sorte a um rio impetuoso que,
quando enfurecido, inunda a planície, derruba árvores e edifícios, remove terra
de um lugar para depositá-lo em outro. Todos fogem diante da sua fúria, tudo
cede sem que se possa detê-la. Contudo, apesar de ter esta natureza, quando as
águas correm quietamente é possível construir defesas contra elas, diques e
barragens, de modo que, quando voltem a crescer, sejam desviadas por um canal,
para que seu ímpeto seja menos selvagem e devastador”. O mesmo ocorreria com a
sorte: ela mostra todo seu poder quando não há nenhuma resistência, dirigindo
sua fúria para onde sabe que não há diques nem barragens. Cabe ao Príncipe antecipar-
se a ela, construindo diques quando as águas estão calmas, para prevenir- se
contra sua fúria, que sempre chega. Mais importante do que realmente possuir
tais virtudes, é aparentá-las. Temos, novamente, o elogio à aparência, à
superfície observável.
Thomas Hobbes (1588-1679)
O pensamento político de Hobbes insere-se na tradição contratualista. O
contratualismo é uma estrutura argumentativa que busca legitimar o poder do
Estado sobre seus membros atravás da noção de um pacto ou contrato por eles
realizado.
Hobbes
realiza um exercício de abstração do poder coercitivo do Estado, tecendo,
assim, considerações acerca da situação dos homens no “estado de natureza” –
conceito forjado para designar o estado no qual se encontrariam os homens em
sua existência pré-política, anterior à sua organização em uma sociedade civil.
Opondo-se a Platão e Aristóteles, Hobbes afirma que os homens são, por
natureza, iguais, tanto em relação às faculdades do corpo quanto às do
espírito; desta igualdade em relação às suas faculdades, deriva-se uma
igualdade quanto à esperança de obtenção de seus fins últimos. O fim último do
homem não seria, como para Aristóteles, sua excelência moral ou felicidade –
termo que, aliás, tem para Hobbes um significado completamente outro, múltiplo
e fragmentado, relacionado à satisfação dos desejos –, mas sua auto-conservação
e, se possível, a satisfação de seus prazeres. Tal desejo ilimitado de
conservar-se, que faz com que os homens se movam, seria uma espécie de
correlato antropológico do conceito mecanicista de inércia, forjado por Galileu
para explicar o movimento a partir de princípios externos: assim como os corpos
físicos tendem, na ausência de força externa que impeça, a continuar em
movimento retilíneo uniforme ou em repouso, os homens tendem a
auto-conservar-se. O pessimismo antropológico esboçado no pensamento
maquiaveliano é radicalizado por Hobbes; o que naquele se apresentava com um
saber antropológico intuitivo é tornado explícito pela teoria política
hobbeseana e seu pano de fundo científico-mecanicista, que traz para legitimar
o poder coercitivo do Estado.
Segundo Hobbes, “o homem é o lobo do
homem”: tendo em vista a tendência dos homens ao egoísmo e amor a si, o estado
de natureza é uma constante “guerra de todos contra todos”, que buscam a
própria auto-conservação e satisfação dos prazeres, em detrimento dos outros. O
direito de utilizar-se de todos os meios que julguem necessários para atingir a
auto-conservação, subjugando os demais, é chamado por Hobbes de direito de natureza. Enquanto viverem
sem um poder comum capaz de manter a todos em respeito, os homens podem fazer
valer seu direito de natureza, vivendo em constante guerra entre si. A
dissociação dos homens por natureza, devido às suas paixões, vai contra a tese
aristotélica do homem como um animal político por natureza; a sociabilidade dos
homens é artificialmente instituída, surgida de um pacto por eles celebrado (isto
não significa, porém, que Hobbes não a considere, de certo modo, natural, já que os homens tendem ao pacto).
No estado de natureza, a única
segurança do indivíduo é aquela que sua própria força e poder de
intervenção pode lhe fornecer: os homens
estão sujeitos a toda sorte de perigos e temores, sendo o medo de uma morte
violenta o maior deles. Não há moral no estado de natureza: não pode haver bem
e mal, justiça e injustiça onde não há um poder comum: há apenas o apetite
pessoal de cada indivíduo. Tampouco há propriedade privada, algo que, devido a
um reconhecimento, dispense a ocupação física para ser considerado como
pertencente a alguém: há apenas posse, algo
que pertence a um homem unicamente enquanto conseguir carregá-lo fisicamente
consigo.
Deste modo, existem, para que os
homens tendam à paz, fundamentos passionais (o medo de uma morte violenta seria
o principal) e racionais (a razão não é vista como um fim em si, mas como um
meio a serviço das paixões). A razão, segundo Hobbes, sugere adequadas normas de
paz, em torno das quais os homens podem chegar a um acordo: as leis de natureza. Enquanto o direito de natureza consiste na
liberdade – entendida de modo puramente negativo, a liberdade refere-se à
ausência de impedimentos externos – que os homens possuem de usar sua força e
poder de intervenção, de modo que julgarem mais adequado, para assegurar sua
auto-conservação, as leis de natureza
são regras gerais da razão que proíbem a um homem fazer algo que destrua sua
vida ou o prive dos meios necessários à sua conservação. Portanto, enquanto o
direito de natureza dá ao homem a liberdade para se auto-conservar, as leis de
natureza, por sua vez, obrigam que ele se auto-conserve.
Dado que, enquanto permanecer o direito
de todos os homens a todas as coisas, nenhum homem poderá ter a segurança de
viver duradoura e tranqüilamente, tem-se, assim, a seguinte regra geral da
razão: todos os homens devem, na medida em que tenham esperança de alcançar a
paz, esforçar-se para tal (primeira lei de natureza); se não for possível,
podem buscar e se valer das ajudas e vantagens da guerra para defender-se (aqui
encontra-se o direito natural). Desta lei fundamental, segue-se uma segunda lei
de natureza: que um homem deve concordar, na medida em que os outros também o
façam e em que considere necessário para atingir a paz e preservar-se,
renunciar a seu direito natural a todas as coisas, contentando-se, em relação
aos outros, com a mesma liberdade que permite aos outros em relação a si. Enquanto
todos não renunciarem a seu direito natural, permanecerão em estado de guerra. Abandona-se
um direito simplesmente renunciando a ele ou transferindo-o a outrem; quem
transfere seu direito (sempre esperando um bem para si), fica obrigado a não
impedir que aquele a quem transferiu goze do respectivo benefício, pois, se o
fizer, tornará nulo seu próprio ato voluntário. O ato pelo qual os homens
transferem mutuamente seus direitos, por meio de uma promessa mútua, chama-se
pacto ou contrato. Assim, tem-se uma terceira lei de natureza, que obriga os
homens a cumprirem os pactos que celebrarem, pois, do contrário, seriam vãos, e
o estado de guerra permaneceria entre eles. Eis a fonte da justiça: uma vez
estabelecido um pacto, rompê-lo é injusto; tudo o que não é injusto, é justo.
As virtudes morais (justiça, gratidão, etc.) são prescritas pelas leis de
natureza como meios para se alcançar a paz. As leis de natureza, segundo
Hobbes, podem ser traduzidas pela noção de reciprocidade: fazer aos outros o
que gostaria que fizessem a si próprio.
A origem da justiça, portanto, consiste
na celebração de um pacto válido; porém, os pactos serão inválidos sempre que
existir receio de não cumprimento de um dos lados. Deve haver, portanto, um
poder coercitivo que obrigue a todos os homens que cumpram seus pactos,
tornando-os válidos: só assim pode realmente haver justiça. Como recompensa ao
direito natural ilimitado a que renunciaram, tal poder coercitivo protegerá as
aquisições materiais dos indivíduos: tem-se aqui a origem da propriedade
privada. Tal poder coercitivo é o Estado, que faz, por meio de leis e do uso da
força, com que os pactos sejam mais do que meras palavras. O Estado, portanto,
representa a condição de existência da justiça e da propriedade privada. As
leis de natureza são imutáveis, mas obrigam os homens apenas in foro interno (ou seja,
subjetivamente, em sua consciência), mas, na ausência de um poder coercitivo
externo, falta-lhes a garantia de que serão realizadas, pois são contrárias às
paixões naturais. É o Estado que, por meio da força da espada pública, torna-as
válidas in foro externo, ou seja,
objetivas, positivas. Para que as leis instituídas pelo Estado sejam justas,
devem guiar-se pelas leis de natureza: não devem infringi-las (em suma, não
devem ir contra a auto-conservação dos indivíduos a elas submetidas), mas
buscar aproximar-se delas.
Portanto, a fim de obter a
auto-conservação e uma vida mais tranqüila, um número de homens institui um Estado legítimo por meio de um pacto
simétrico, no qual cada um concorda com os demais em alienar absoluta e
mutuamente seu ilimitado direito natural de governar-se e transferi-lo a um
homem, escolhido pela maioria, que possuirá o direito de representá-los e a
quem todos deverão submeter-se absolutamente. Com o pacto de submissão
absoluta, os atos do soberano são autorizados pelos súditos tal como se fossem
seus próprios atos. Não há divisão dos poderes (defendida por Locke como
condição de um Estado legítimo), mas o soberano possui poder absoluto: faz as
leis, garante que sejam executadas e pune os transgressores. Como o soberano
não pactuou com ninguém, ele não pode cometer injustiça ou infração, tendo,
inclusive, liberdade para dispor das propriedades de seus súditos, já que foi
ele mesmo que as instituiu. A liberdade dos súditos, por sua vez, consiste em
poder fazer tudo aquilo que o soberano não os impede: assim, Hobbes afirma que
a liberdade dos súditos é conciliável com a necessidade de obediência ao
soberano (tal como o movimento de queda livre, estudado por Galileu, que é
livre e necessário). Os súditos têm a liberdade de desobedecer ao soberano se
este exigir que se matem ou se privem de algo necessário à vida, pois, caso
contrário, estariam agindo contrariamente a seu fim último e motivo pelo qual
instituíram o Estado: a auto-conservação.
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