sábado, 26 de maio de 2012

Aula 3 – Ontologia Platônica


Platão fundou uma escola de Filosofia chamada Acadêmia, onde em seu pórtico contava com a inscrição “não entre aqui quem não souber geometria”, o que nos alude ao caráter abstrato-formal de suas concepções filosóficas. Afinal, quantos sejam os triângulos reais existentes ou as circunferências encontráveis na natureza ou mesmo as produzidas pelo homem, nenhuma destas figuras existe tal como a idéia que fazemos conceitualmente delas pois, por mais avançado que seja o nível tecnológico de nossos instrumentais, há sempre uma distorção residual. Seja no macro ou no microcosmo, onde era para ser reta encontra-se uma curva, e onde era para ser curva encontra-se uma reta (vide os figuras geométricas computacionais que, construídas por pixels, sempre esbarram num limite...)

  • O fundamento da doutrina ontológica platônica está na relação de participação  que se estabelece entre ‘formas puras’ (eidos) – entendíveis como universais, conceitos generalistas e abstratos – e os ‘particulares’ – exemplares concretos. O verbo ‘participar’ tem aqui o mesmo sentido que o verbo ‘instanciar’. Ex: “aquela cadeira ‘x’ determinada participa do (ou instancia o) universal ideia-cadeira”.
  •  Para Platão, cada ‘particular’ participa de um conceito que lhe é maior, de uma idéia que lhe abrange, um ‘universal’. Assim sendo, o exemplar particular não esgota todo o sentido (toda a possibilidade) da ideia universal de si mesmo da qual precisamente porque participa é que é dela um exemplar, um existente. O particular é apenas um exemplo determinado (específico). Ex: a cadeira ‘x’ é uma dentre as possíveis cadeiras. Nesse sentido, o universal significa precisamente uma ideia geral, um conceito, uma forma pura, ou seja, é a essência da coisa mesma em questão. É preciso notar que o que há de essencial é aquilo que não muda. Para Platão, a essência das coisas é eterna, enquanto que as coisas, estando em devir, são corruptíveis, deixam de existir. Ex: a ideia-cadeira, que é o que há de essencial em todas as cadeiras, não deixaria de existir ainda que todas as cadeiras concretas fossem aniquiladas. O exemplo anterior deixa claro uma importante noção segundo a qual o vínculo ontológico entre particulares e universais é um vínculo externo; ou seja, a ideia – universal – não está contido nos particulares que dela participam, precisamente porque nenhuma cadeira particular encerra a essência do que seja uma cadeira em geral. Em outras palavras, o todo é maior do que a soma das partes. Mais do que isso, a unidade do conceito é anterior à multiplicidade de particulares. Por isso mesmo que, ainda que destruíssemos todas as cadeiras do mundo, a ideia do que seja uma cadeira não por isso deixaria de existir, sendo ainda possível voltar a construir cadeiras porque delas ainda teríamos o saber, o conceito. O detalhe é que para Platão o conceito é condição de possibilidade, é anterior, existe enquanto realidade externa à coisa concreta.


A suposta externalidade da forma (essência, em-si) incorruptível, frente à instabilidade da matéria, em constante movimento (devir), leva Platão a conceber o ‘mundo das formas’. Este é um conceito que visa superar as distintas -  ou até mesmo opostas - teses ontológicas dos filósofos pré-socráticos Parmênides e Heráclito.  Vejamos suas teses:

  • Parmênides defendia a tese segundo a qual o todo era Uno, indivisível, e também que “o ser é e o não-ser não é”. Por ‘é’ entende-se ‘existência’. Platão designaria tal tese como a “tese da identidade ou repouso do ser”, na qual o ser existe enquanto idêntico a si mesmo. Para Parmênides, nada que seja existente, pensável e dizível pode não-ser, pois o não-ser não é, sendo assim era impensável e indizível. A consequência é que o mundo material como o conhecemos, em seu incessante movimento (portanto em seu incessante tornar-se outro), não passava então de ilusão dos sentidos, irrealidade, pois o ser era estático.
  • Por sua vez, Heráclito sustentava a tese segundo a qual a essência do Real era estar em movimento, estar em devir, ou seja, ser transformação ininterrupta. Tese designada por Platão como “mobilismo quanto ao ser”. Consequentemente, toda apreensão do Real enquanto fixidez advinha da incapacidade dos sentidos de apreenderem o movimento subjacente que reside em todas as coisas.



A noção de ‘mundo das formas’ como tentativa de superar o dilema entre imobilistas e mobilistas visa compatibilizar a realidade imutável das essências inteligíveis (eidos) com a realidade mutável dos fenômenos sensíveis. Para Platão, há realidade tanto no devir material quanto no conceito do qual correspondem e, por ser o mundo das formas um mundo de formas puras (perfeitas) então, consequentemente, possui tanta realidade quanto a realidade do mundo sensível, que também existe mas é cópia imperfeita das formas puras. A melhor ilustração do que seja o ‘mundo das formas’ é a conhecida “alegoria da caverna”, apresentada por Platão em seu livro A República, quando já no “capítulo” VII. Segue abaixo um resumo da alegoria:

Consiste numa estória em que alguns prisoneiros imóveis desde a infância no interior de uma caverna nunca teriam visto nenhuma outra imagem além das sombras que incidiam projetadas pela única fonte de luz que era a entrada da caverna, para a qual estavam de costas. Com os rostos voltados para a parede, sem possibilidade de volver o pescoço, visualizavam ao longo do dia as mais distintas e indefiníveis formas, e como nunca tinham experienciado nada além daquilo, achavam que somente as sombras eram o que existia. Houve um dia, porém, em que um dentre eles conseguiu se libertar e logo adiantou-se para fora da caverna. Como nunca tinha entrado em contato com aquela abundância de luz tal como emana do Sol sob a Terra, seus olhos então ofuscaram-se mas, tão logo adaptados, começou a enchergar as coisas como elas são de fato. Para seu espanto, o mundo tinha contornos bem definidos, bem delineados, e mais, as coisas tinham cores! Animado com a descoberta, desceu novamente à caverna para comunicar a verdade aos seus companheiros de cativeiro, dizer-lhes que as formas na parede eram sombras, projeções imperfeitas de um mundo Real e belo, e que quando enfim estivessem libertos poderiam ver o que lhes dizia com os próprios olhos! Todavia, julgaram-no louco e o mataram.

Comparando a alegoria com o conceito de mundo das formas:

  1. o Real da alegoria, o mundo fora da caverna, seria como que a realidade do mundo essencial onde existem as formas puras (eidos). O crucial a ser extraído da analogia é a noção de contorno, de precisão, de limite. Afinal, o universal ou a essência de cada coisa tem ilimitados exemplares particulares, mas ela mesma é uma só em sua perfeição.
  2. As sombras projetadas na caverna seriam como que o mundo sensível. O crucial aqui é entender  que o mundo sensível por mais que seja real (existente) é apenas produto de uma fonte outra, de um modelo, que lhe é externo – tal como as sombras são extrínsecas aos modelos do qual são sombra.
  3. Os prisoneiros na caverna são como que as pessoas no mundo. Indica que nossos conhecimentos estão às voltas com o falso, com as sombras de uma verdade superior. O movimento de libertação e subida para fora da caverna em direção à luz representa o processo dialético, a ciência pela qual o filósofo pode superar as opiniões (doxa).



O método ou ciência para passar das falsas opiniões sobre o que sejam as coisas e chegar à uma verdade essencial acerca das mesmas é o que Platão entendia por ‘dialética’. Nas palavras do filósofo:

“(...) o método da dialética é o único que procede, por meio da destruição das hipóteses, a caminho do autêntico princípio, a fim de tornar seguros os seus resultados, e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e eleva-os às alturas (...)” (A República, 533d).

A dialética é um método dialógico, ou seja, posto em prática pela via do diálogo, ainda que seja consigo mesmo, o que caracteriza o próprio ato de pensar: dialogar consigo. Vale ressaltar que, para que os interlocutores possam chegar a conclusões seguras, é preciso que abram mão de suas concepções pré-estabelecidas, ou seja, que aniquilem o orgulho que fixa na forma da certeza uma não-verdade, uma opinião dogmática.

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