domingo, 27 de maio de 2012

Aula de empirismo


Contraposto ao racionalismo, o empirismo apresenta forte influência do pensamento aristotélico no que concerne à origem das idéias: nega a existência de idéias inatas, defendendo que todas as nossas idéias são adquiridas por meio da experiência.

John Locke (1632-1704)

            Para negar a existência de idéias inatas, Locke se vale da metáfora do entendimento (mente ou espírito) humano como tábula rasa: o entendimento espera para ser preenchido pela experiência, assim como uma folha de papel em branco, pela escrita. No Ensaio acerca do entendimento humano, ele afirma que todo conhecimento é adquirido. A única coisa inata ao homem seria sua capacidade de conhecer: as faculdades do entendimento, mencionadas apenas rapidamente.
Ele se propõe a investigar a origem de nossas idéias, entendidas como os materiais de nosso conhecimento, como qualquer coisa que consiste no objeto do entendimento quando pensamos. As fontes de nossas idéias são duas, que, juntas, formam o que Locke chama de experiência: 1) a sensação, que consiste na percepção das sensações provenientes dos objetos sensíveis externos; 2) a reflexão, que consiste na percepção das operações internas de nossas mentes.
Locke distingue duas categorias de idéias: as simples e as complexas. As qualidades sensíveis que impressionam nossos sentidos, apesar de estarem misturadas e unidas nos próprios objetos externos, entram pelos respectivos sentidos sem qualquer mistura, separadas e simples: constituem as idéias simples da sensação – o exato oposto das idéias simples cartesianas, que são da razão (como 2+2=4, por exemplo). A cor e o gosto de um determinado objeto, por exemplo, estão unidos nele, mas seriam completamente distinguíveis entre si como idéias percebidas separadamente pela visão e o paladar, e nada contém em si além de uma aparência ou concepção uniforme na mente, que não pode ser dividida em idéias diferentes. O entendimento, quando abastecido de idéias simples, tem o poder para repeti-las, compará-las e uni-las quase infinitamente, formando assim as idéias complexas, mas não pode jamais destruí-las ou inventá-las (deve sempre recebê-las da sensação ou da reflexão, ou seja, da experiência). Algumas idéias simples da sensação podem se tornar perceptíveis por um único sentido (como idéias de cores, sons, gostos, etc), outras por mais de um (idéias de espaço ou extensão, de repouso e movimento, etc.).
A mente humana, adquirindo do exterior as idéias simples da sensação, volta-se para dentro de si mesma e observa suas próprias operações acerca das idéias que já possui: é a origem das idéias simples da reflexão, que compreendem as idéias de percepção ou pensamento e de vontade, também chamadas por Locke de faculdades da mente. Há também idéias simples que nos vêm tanto da sensação quanto da reflexão, como as idéias de existência, de poder, de prazer e dor. Segundo o protestante Locke, as idéias de prazer e dor teriam sido ajuntadas aos vários pensamentos e sensações, por Deus, nosso “sábio Autor”, com o intuito de motivar-nos a certas ações do pensamento e movimentos de que somos capazes, a fim de evitar que nos tornemos ociosos e inativos, e preservar-nos de outras.
A faculdade de retenção seria a responsável pela manutenção, na mente, das idéias simples que recebemos por sensação e reflexão. A retenção se dá de dois modos: por contemplação, ou seja, mantendo a idéia introduzida realmente sob a visão ou percepção imediata, e por memória, que consiste no poder de reviver em nossas mentes aquelas idéias que, após serem impressas, desapareceram ou parecem ter sido postas de lado, longe da visão. A memória seria como um armazém de idéias, um quarto escuro do entendimento, cuja função seria a de fornecer à mente as idéias adormecidas, quando solicitadas em determinadas ocasiões. Permanece obscuro como e por que algumas idéias vêm à tona e outras não; Locke apenas afirma que essa recordação depende às vezes da vontade. A atenção, a repetição e o prazer e a dor ajudariam a fixar as idéias na memória.
Assim, a partir das idéias simples que a mente recebe passivamente, ela forma voluntariamente idéias complexas. A mente é, como para os empiristas em geral, apenas um instrumento, um meio que atua sobre o que recebe passivamente, sem, porém, tirar nada de si mesma: no linguajar dos racionalistas, eles cairiam na dúvida cética, pois páram no plano do sensualismo, refutando a existência de verdades puramente de razão.
As principais faculdades da mente, pelas quais ela exerce poder sobre suas idéias simples, são: 1) a combinação de várias idéias simples para formar uma complexa (combinando várias idéias de unidade, por exemplo, chegamos à de uma dúzia); 2) comparação de duas idéias, sejam simples ou complexas, a fim de obter uma visão delas, sem, porém, reduzi-las a uma (origem das idéias de relação, entre as quais encontram-se as idéias de tempo e espaço e de causa e efeito); 3) denominação: repetição de idéias e uso de um sinal lingüístico para se referir a elas e comunicá-las a outrem; 4) a separação das idéias de todas as outras que lhes estão relacionadas em sua existência real, por meio da abstração (origem das idéias gerais).
As idéias complexas dividem-se em três tipos: 1) idéias de modos ou acidentes: não contém em si a suposição de que podem subsistir por si mesmas; 2) idéias de substâncias: representam coisas que podem subsistir por si mesmas; 3) idéias de relação: remetem à comparação de uma idéia com outra.

David Hume (1711-1776)

            Para Hume, todas as ciências, inclusive a matemática, dependeriam de certo modo do estudo da natureza humana, já que são objetos do conhecimento do homem, sendo julgadas por seus poderes e faculdades. As principais ciências seriam: a lógica, cuja finalidade é a explicação da natureza das idéias e dos princípios e operações de nossa faculdade de raciocinar; a moral e a crítica (estética), que tratam dos nossos costumes, gostos e sentimentos; a política, que trata dos homens enquanto unidos em sociedade. Tais ciências compreendem quase tudo que possamos ter interesse em conhecer e correspondem ao que Hume entende por metafísica, entendida enquanto ciência dos fundamentos, dos princípios primeiros do conhecimento (base para todas as outras ciências). Ironicamente, a metafísica de Hume corresponde ao que chamamos de filosofia prática.
            O único modo de conduzir as investigações filosóficas ao sucesso seria marchar para sua “capital ou centro”: a própria natureza humana. Pode-se notar, no pensamento, humeano, certa antecipação de traços do que se tornará a chama “revolução copernicana” de Kant. Fiel ao empirismo, porém, Hume afirma que a ciência do homem teria na experiência e observação seu único fundamento sólido.
  O conhecimento, segundo Hume, divide-se em dois tipos: questões de fato, ou seja, o conhecimento com bases empíricas, e relações de idéias (aqui se encontra a matemática), que independe da observação de fatos empíricos.
Existem, segundo Hume, dois tipos de percepções da mente humana: impressões e idéias. Sua diferença consistiria apenas nos graus de força e vividez com que atingem nossa mente e entram em nosso pensamento: as impressões corresponderiam às percepções que penetram em nossa alma com mais força e violência – as sensações, emoções e paixões, em sua primeira aparição –, enquanto as idéias, por sua vez, seriam impressões enfraquecidas, imagens pálidas dessas impressões no pensamento e no raciocínio – uma espécie de ficção criada pela mente a partir das impressões. As impressões são os objetos do sentir, e as idéias, do pensar; são, em geral, distinguíveis entre si de um modo bastante claro, embora existam ocasiões em que possam se encontrar bastante próximas, como no sono. Com tal distinção, Hume coloca-se contra a concepção lockeana segundo a qual as próprias sensações são idéias, tornando o processo de formação das idéias, que para Locke era imediato, em mediado pela mente.
            Hume estabelece uma divisão das percepções, aplicável tanto às impressões quanto às idéias, em simples – não podem ser distinguidas em partes – e complexas – admitem uma tal distinção. Por exemplo: as sensações das qualidades da maçã (aroma, cor, sabor)  são distinguíveis entre si e não podem ser divididas (são impressões simples), enquanto a sensação da maçã, por sua vez, seria uma impressão complexa. Toda impressão simples tem uma idéia simples que lhe corresponde, e vice-versa. Como as complexas se formam a partir delas, em geral impressões e idéias se correspondem, embora existam exceções, devido ao trabalho da imaginação. As impressões simples sempre antecedem suas idéias correspondentes, elas são causas de suas  idéias (que são suas cópias enfraquecidas); as idéias também produzem outras idéias (imagens de si próprias), e assim por diante.
            As impressões podem ser divididas em dois tipos: de sensação e de reflexão. Quando uma impressão atinge nossos sentidos, fazendo-nos perceber calor ou frio, por exemplo, temos uma impressão de sensação. Em seguida, a mente faz uma cópia desta impressão, que permanece mesmo após essa desaparecer: tem-se, assim, uma idéia de sensação. Esta idéia de calor ou frio, ao retornar à alma, produz novas impressões, de desejo ou aversão, por exemplo, que podemos chamar propriamente de impressões de reflexão, pois derivam dela (dos efeitos das idéias de sensação em nosso pensamento). A mente, em seguida, copia novamente essas impressões de reflexão, convertendo-as em idéias reflexão, que podem gerar ainda outras impressões e idéias.  Portanto, as impressões de reflexão antecedem apenas suas idéias correspondentes, mas não as idéias de sensação.
            O interesse principal de Hume centrava-se na filosofia moral (estudo dos costumes): como o estudo das sensações caberia mais ao anatomista e ao filósofo natural, e os desejos, emoções e paixões (objetos da filosofia moral), ou seja, as impressões de reflexão, surgem das idéias, Hume volta-se a um exame destas, deixando de lado as sensações.
            Quando uma impressão esteve presente na mente, reaparece sob a forma de uma idéia, podendo isso ocorrer de dois modos: pela faculdade da memória, por meio da qual a idéia retém um considerável grau de vividez de sua impressão, sendo uma espécie de meio termo entre uma impressão e uma idéia, e pela faculdade da imaginação, por meio da qual a idéia perde inteiramente a vividez da impressão que a causou (torna-se uma perfeita idéia). Diferentemente da memória, a imaginação não se atém à mesma ordem e forma das impressões originais, mas tem liberdade para transformar suas idéias e pode produzir uma separação entre elas, sempre que observar alguma diferença.
            A faculdade da imaginação seria inexplicável – e sua associação de idéias simples em complexas, completamente arbitrária –, caso não fossem observáveis alguns princípios universais que a regem (uma espécie de força suave que a torna razoavelmente uniforme). Esses princípios são três, e têm por fundamento unicamente o hábito da mente em associar idéias: 1) semelhança: a imaginação passa de uma idéia a qualquer outra que lhe seja semelhante; 2) contigüidade (ou proximidade) no tempo e no espaço: a idéia de um cômodo de uma casa, por exemplo, leva à idéia de um outro imediatamente próximo; 3) causa e efeito: é o laço mais forte que pode haver entre duas idéias na mente, que não as conecta apenas por causalidade direta, mas também quando há entre elas uma terceira, que mantém relação com ambas. A relação de causalidade que estabelecemos entre duas idéias (por exemplo, entre a de fogo e a de calor) não é necessária: só chegamos a ela por experiência e indução, sendo o hábito ou costume o seu único fundamento. Há uma célebre frase sua que diz que não podemos ter certeza de que o sol nascerá amanhã; se afirmamos que ele nascerá, o fazemos unicamente por costume: observamos que, até hoje, ele sempre nasceu, e, a partir daí, concluímos, a partir de limitadas observações particulares, que isso sempre ocorrerá (raciocínio indutivo).
            Em Hume, todas as associações se dão na mente, apenas no âmbito das idéias; não há mais uma espécie de realismo ingênuo que remetia as idéias às impressões, e estas às próprias coisas – “colando-as” todas –, como ainda havia, de certo modo, em Locke. Inclusive, quando Hume afirma que as idéias tem as impressões como suas causas, isso significa que as idéias só remetem a elas por meio do hábito que temos em relacioná-las.

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