Aula Heidegger e Kierkegaard:
Kierkegaard: Sören Kierkegaard (1813-1855) foi um filósofo dinamarquês
que manteve uma forte oposição à filosofia hegeliana e às respectivas noções de
dialética e de sistema de totalidade, visto que aí existiria uma abstração da
existência singular e individual, sem lugar para a experiência particular. Ele
foi o precursor do movimento existencialista com as suas noções de angústia, do
absurdo da existência e na centralização da filosofia na experiência singular.
Ele separa 3 estágios da existência,
os quais são o ideal de vida estético – ligado às sensações, do sedutor que
sente prazer - , desse ideal de vida se dá um salto que conduz à vida ética –
do honesto pai de família -, depois dá-se o salto da existência religiosa – o
ápice da vida no amor de Deus, em que se crê no absurdo da fé, sem tentar
justificar racionalmente a fé.
A angústia caracterizaria a condição
humana, a possibilidade como ameaça do nada. A angústia então forma, destrói
finitude, descobre ilusões, e é desse modo que Deus desce em busca do homem. O
desespero é próprio do homem em relação consigo mesmo, num eterno morrer sem
todavia morrer em que se vive a morte do eu. A causa primeira do desespero é
não aceitar as mãos de deus, e negar a deus é aniquilar-se a si mesmo. A
existência autentica estaria disponível no amor de deus, daí não haveria mais
desespero e apenas o puro tédio.
Heidegger: Martin Heidegger foi um filósofo alemão (1889-1976) que
propôs uma reformulação da metafísica a partir da colocação em jogo da questão
do Ser, que para ele havia sido esquecida desde os idos da filosofia antiga
platônica. A partir da hermenêutica e da filosofia fenomenológica de Husserl,
ele propõe uma analítica existencial, onde se recoloca em pauta a busca pelo Ser,
indo contra a tradição filosófica da metafísica que se deteu num mero estudo
dos entes, pois tentavam abordar o ser numa tentativa meramente
lógico-epistêmica.
O primeiro passo de Heidegger é a
postulação da diferença ontológica, que mostra a separação entre ente e Ser. O
ente se caracterizaria por ser o que é, no nível das propriedades, sendo “tudo
de que falamos dessa ou daquela maneira, ente é também como o que e nós mesmos
somos”, enquanto o ser, munido de certa indefinibilidade, apareceria como o motivo
de questionamento central para a filosofia de Heidegger. O ser é sempre ser de
um ente.
O homem entraria então com o papel de
questionador do ser, tornando transparente seu próprio ente questionador. O
modo de ser do ente que questiona e compreende seria o existencial Dasein, que
todos nós somos. Apenas seriam existentes os homens, por possuir essa
capacidade de compreensão. O Dasein está em jogo no seu próprio ser e se
compreende sendo. Ser é aparecer.
Além do modo de ser do Dasein,
existem outros existenciais que explicitam as ligações do ser do ente homem com
a temporalidade e com o mundo. Os existenciais seriam tais quais categorias,
porém não objetivas, disposicionais nem coisificantes, visto que os
existenciais possuem uma estrutura aberta. Esses outros existenciais são o
ser-com, o ser-para-a-morte, e o ser-no-mundo, que são pensados a partir da
estruturação espaço-temporal do ser.
O ser-no-mundo é um existencial que
corresponde à noção de um Dasein que habita o mundo e que o confere significado,
de um Dasein que está junto ao mundo, este enquanto fenômeno. O mundo seria
formado por esse ser-no-mundo que o habita, visto a abertura que se dá a partir
da compreensão do Dasein que é em um mundo. O ser-no-mundo possui um privilégio
ôntico-ontológico frente aos instrumentos, visto que esses não são no-mundo,
pois são entendidos como entes apenas a partir da sua manualidade, suas funções
e aplicações. Esses entes são ser-para, situados na funcionalidade.
O ser-para-a-morte apareceria a
partir da idéia de que somente os Dasein possuem essa conexão com a morte de
antecipação, distinção extrema dos outros entes que estão dados no mundo. O
existencial ser-para-a-morte é fundado a partir dessa oblíqua ligação que
mantemos com a morte, essa estranha iminência que nos envolve a todo momento e
da qual nos esquivamos. O ser-para-a-morte seria a possibilidade mais própria
do Dasein, o mais próximo da autenticidade. A autenticidade reside no
angustiar-se com a morte.
No modo da cotidianidade, tende-se a
esquivar-se da morte, tratando a morte de modo fugidio, visto que ‘morre-se’ no
impessoal, a morte é sempre conhecida enquanto morte de outro. “A ‘morte’
nivela-se a uma ocorrência que, embora atinja o Dasein, não pertence
propriamente a ninguém”. Tende-se a encobrir o caráter de possibilidade da
morte, para permanecer na cotidianidade tranqüila que se vê escapando da morte.
“A morte é, em última instância, a
possibilidade da impossibilidade pura e simples do dasein.” O Dasein tem
pendência para a finitude, e o ser-para-a-morte é caracterizado como ser para
uma possibilidade privilegiada do Dasein. A morte, enquanto possibilidade mais
própria do Dasein, ao ser desvelada, possibilita o Dasein a abrir a si mesmo.
Quanto ao existencial ser-com, é
cunhado para exprimir a
característica de Dasein de suas ações nunca se darem isoladas, dele nunca ser
dado em isolamento e sim apenas com os outros, que se encontram co-presentes no
ser-no-mundo. Nesse âmbito surge a questão do eu e dos outros, onde os outros
seriam os entre os quais também estamos e que são propriamente complicados de
diferenciar. Com nosso mundo compartilhado com outros seres-no-mundo
determinados pelo com, o ser-em é sempre ser-com os outros. Mesmo sem
onticamente ninguém por perto, o ser-com nunca está sozinho. Já o impessoal
seria o modo difuso do Dasein na cotidianidade, modo em que o Dasein foge de si
mesmo e não desvela as coisas.
A angústia é a disposição ideal para
o estudo do Ser, visto que na angústia se angustia com o próprio ser-no-mundo.
Aqui ocorre uma abertura para o mundo de maneira originária, onde Dasein retoma
a responsabilidade sobre seu próprio ser, onde Dasein se estranha e não se
sente em casa.
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