quinta-feira, 24 de maio de 2012

Schopenhauer e Nietzsche


A crítica da modernidade:
A crítica dos paradigmas regentes da modernidade foi realizada principalmente na segunda metade do século XIX, principalmente pela tríade composta por Marx, Nietzsche e Freud, onde os três realizaram uma grande virada crítica de pensamento nos âmbitos da política, da ontologia e da subjetividade.
Porém, nos ateremos aqui apenas ao pensamento de Nietzsche e sua influência de Schopenhauer, crítico de Hegel e Kant.

              Schopenhauer:
            Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi um filósofo alemão que se contrapôs à filosofia hegeliana, que trouxe influências de religiões orientais para a filosofia, além de ter sido de suma influência para o pensamento superior de Nietzsche. Sua obra capital é o mundo como vontade e representação, onde ele realiza uma leitura da coisa-em-si e do fenômeno kantiano a partir de suas noções de vontade e representação.
            O mundo seria compreendido como fenômeno, representação, assim como tudo que existe para o conhecimento; e seria compreendido a partir de duas metades essenciais e inseparaveis, sendo elas: o sujeito, que tudo conhece e por ninguém é conhecido, que é fora do tempo e do espaço e que ordena as representações, sensações, etc por meio da categoria da causalidade, esta que seria principio de razão suficiente. A outra metade essencial é objeto, aquilo que é conhecido e condicionado pelas formas a priori do tempo e do espaço. A realidade do objeto e da materia se esgota em sua causalidade. Ou seja, a representação é apenas fenômeno, o que aparece.
            Já a vontade, compreendida como coisa em si, seria a essência intima de toda a  universalidade dos fenomenos, seria o noumenom como ímpeto cego e irresistivel, a vontade é irracional, eterna, irrefreável. A realidade e o sujeito seriam também  vontade. Além disso, a vontade seria dor, sofrimento pecado e tedio, dos quais só poderiamos nos libertar mediante a arte e a ascese.
            O papel da arte é o de realizar a separação da vida, em que se anulam as necessidades advindas da vontade. O homem se aniquila como vontade na experiência estetica e se transforma em puro olho do mundo, mergulha no objeto e esquece-se de si mesmo e da dor. Pela arte homem percebe os objetos e se dissolve neles, percebendo ideias essencias, modelos das coisas fora do espaço do tempo e da causalidade. A arte expressa e objetiva a essencia das coisas.
            O gênio capta ideias eternas e a contemplaçao estetica mergulha nelas. A arte é um momento da libertação, contudo a libertação total ocorre pela ascese, quando o homem esta pronto para redenção ao entender a realidade como vontade. Os estagios da redenção são: a arte que objetiva a vontade, com sua anulação temporaria; a justiça, no reconhecimento dos outros como iguais a nós; a bondade, que seria a compaixão para com os seres que vivem no nosso mesmo destino trágico; e a ascese, primeiro como livre e perfeita castidade que arranca o homem da vontade de viver e a noluntas, cessação completa do querer.
            
                  Nietzsche:
           Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um grande leitor e crítico do cânone da modernidade, criticando tanto noções metafísicas quanto epistemológicas e morais, e também questionando toda a filosofia postulada por filósofos como Kant e Hegel e a influência do cristianismo sobre estas.
            Ele realiza uma crítica aos fundamentos tanto da moral quanto do conhecimento epistêmico a partir do método genealógico, em que ele tenta escavar profundamente toda a base que fundamenta as ideias que norteiam nosso comportamento, como os conceitos de verdade, de bem e de mal.
Com esses estudos, ele postula que todos esses conceitos não foram fundados a partir da realidade como é dito, e mostra como a concepção de verdade essencialista que temos é demasiadamente frágil e provem de uma série de ilusões e de metáforas do nosso intelecto, órgão mais frágil do homem. Ele critica a noção do conhecimento puro e desinteressado, e vê o interesse que o homem tem numa verdade que seja agradável para ele, sendo hostil àquelas verdades que o machucam, desqualificando-as como verdade. Isso demonstra como o critério de verdade depende também de uma ampla atribuição de valores, onde a verdade antropormofizaria a realidade e serviria a uma utilidade.
A filosofia teria para ele o papel de desmascarar essas falácias e mostrar as raízes obscuras do conhecimento e da moral, de mostrar essa passagem da linguagem enquanto simples nomeação de coisas para a sistematização de verdades eternas.  Com a análise genealógica das falhas constituintes dos conceitos que norteiam a sociedade, e a inexistência de significados estáveis, Nietzsche desqualifica qualquer fundamento rigoroso da verdade metafísica.
            Ao ver o conhecimento como luta de instintos, Nietzsche se distancia da tradição racionalista e procura trazer à tona as forças vitais, instintivas e inconscientes que foram renegadas pela filosofia desde Sócrates, que teria sido o primeiro a trazer a domesticação das paixões na reflexão moral. Esse processo teria sido posto em aceleração pelo cristianismo, que atuaria como religião do ressentimento, propagadora da moral dos fracos. Para ele, essa moral ressentida do cristianismo, baseada na má-consciência e na culpa, enfraqueceria o homem e tornaria-o doente.
            A partir dessa crítica à moralidade cristã, que para Nietzsche se voltaria contra a natureza em prol de uma divindade reativa, ele propõe a transvaloração de todos os valores, onde ele se pergunta sobre o surgimento dos valores que hoje estão instaurados e acha neles uma raiz de reatividade. Esses valores hoje instituídos seriam os valores dos fracos, da negação da vida, dos que operam a dicotomia de bom e mau a partir de uma relação do bom com caridade, piedade e submissão; e do mau com a força, a crueldade e a agressividade.
            Porém, para Nietzsche essa diferenciação entre bom e mau realizada pela moral ressentida do cristianismo seria apenas uma diferenciação em que o bom seria o que nega a vida e o mau como o que afirma a vida. Assim, para ele, o cristianismo operaria no âmbito de um niilismo reativo, que não visa a afirmação da vida, mas sim a morte desta em prol de uma suposta além-vida na transcendência, esta que fundamentaria também a distinção entre bem e mal com a mortificação do corpo no mundo em que vivemos.
            A moral reativa – dos escravos – seria decadente, de rebanho, e não proporcionaria a afirmação da vida. Ela tenta subjugar os instintos pela razão e, na busca pela paz e pelo repouso, negaria os valores vitais e resultaria numa passividade do indivíduo enfraquecido para o qual a alegria se transforma sinônimo do ódio à vida sentido pelos impotentes. A conduta aqui é guiada pelo ressentimento e pela má-consciência.
            Já a proposta de Nietzsche é um retorno à moral dos fortes, uma moral positiva que muito teria a ver com a moral antiga dos gregos e dos aristocratas, onde a virtude residiria na força e na potência do homem que afirma a sua vida sobre tudo. Aqui o mau seria o fraco, o desprezível;e o bom seria o criativo, o invertido, o que se afirma em sua potência. Ou seja, o bom seria o que intensifica essa vontade de potência do homem que se afirma.
            Outras noções importantes na obra de Nietzsche são as de eterno retorno e a de übermensch, supra humano, o que transpõe os limites do humano. Utilização do termo niilismo, onde o niilismo ativo seria o que opera a transvaloração ao destituir todo o valor da moral posta, e o niilismo passivo seria o do cristianismo que destitui a vida de valor, a mortificando em prol da transcendência.  O eterno retorno seria também uma metáfora em que se vê a afirmação da vida, no parágrafo 341 da Gaia Ciência.

2 comentários:

  1. Não sou um homem, nem a metade de um homem: talvez um projeto. Mas em mim o que faltara aquele compensou.

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  2. Muito bom. Me ajudou bastante no trabalho escolar!

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